Como se poderia ser uma cópia mal feita de se mesmo? Sou quem sou, mas meus gostos parecem copiados de um eu perdido no tempo. Vejo-me escritor aposentado de textos sempre bem comentados, mas de um espírito mal renovado e sob uma atividade predatória e não-renovável sobre minha criatividade. Tenho sede de livros? de arte? amo alguém?
Falo dos meus gostos e trago a mente lembranças de tempos atrás. Sinto-me um fantasma atrás do meu eu de tempos atrás. Quero-o de volta, encorporado em mim mesmo. Não posso, no entanto. Olho adiante e vejo o mundo com um leque aberto de oportunidades. Procuro ser eu novamente, espelho de mim mesmo, desenho sem rascunho e sem linhas por onde me guiar.
2 de fevereiro de 2008
27 de dezembro de 2007
Terceira pessoa
Vertigens em azul, daqueles de fim de tarde quase noite. Vejo-me colado ao batente da porta, copo na mão de uma bebida que me falha a memória. Queria sentir seu gosto e poder enxergar o meu rosto, mas mesmo a pouca distância é um muro intransponível para minha miopia. E aquele pouco de surdez me previne de ouvir minha própria voz, que fica abafada em palavras que saem fracas da boca e do qual pouco se entende senão pelos lábios. Daí que a minha terceira pessoa percebe-se confusa e obscura no entendimento de mim mesmo, já na calada da noite, o céu em estrelas.
6 de dezembro de 2007
28 de novembro de 2007
As cidades e os desejos 2
"A três dias de distância, caminhando em direção ao sul, encontra-se Anastácia, cidade banhada por canais concêntricos e sobrevoada por pipas. Eu deveria enumerar as mercadorias que aqui se compram a preçoes vantajosos: ágata ônix crisópraso e outras variedades de calcedônia; deveria louvar a carne do faisão dourado que aqui se cozinha na lenha seca da cerejeira e se salpica com muito orégano; falar das mulheres que vi tomar banho no tanque de um jardim e que às vezes convidam - diz-se - o viajante a despir-se com elas e persegui-las dentro da água. Mas com essas notícias não falaria da verdadeira essência da cidade: porque, enquanto a descrição de Anastácia desperta uma série de desejos que deverão ser reprimidos, quem se encontra uma manhã no centro de Anastácia será circundado por desejos que se despertam simultaneamente. A cidade aparece como um todo no qual nenhum desejo é desperdiçado e do qual você faz parte, e, uma vez que aqui se goza tudo o que não se goza em outros lugares, não resta nada além de residir nesse desejo e se satisfazer. Anastácia, cidade enganosa, tem um poder, que às vezes se diz maligno e outras vezes benigno: (...) a fadiga que dá forma aos seus desejos toma dos desejos a sua forma, e você acha que está se divertindo em Anastácia quando não passa de seu escravo." - As cidades invisíveis, Italo Calvino
24 de novembro de 2007
Estrada
A vida definitivamente é uma estrada de muitos caminhos, escrita a areia. É necessário feeling para atravessar incólume por ela e muitas vezes o sentimento de arrependimento, ou a súbita sensação de que uma escolha alternativa teria levado a um local melhor, nos acomete e desejamos retornar. Mas querer dar uma passo para trás é perceber que o caminho não está mais lá: ele mudou com o vento e o que nos resta é andar para frente a procura de outras escolhas, outras dúvidas. Da trajetória que percorremos, não nos resta nada muito além de remorso, dúvida, arrependimento, as feridas nos pés que andaram demais e um futuro inteiro pela frente, até onde o futuro acabar.
4 de novembro de 2007
Pelo dinheiro
Penhorei o coração por falta de uso. A peça era meio antiga mas funcionava com precisão: batia regularmente e, na presença de um rosto mais bonito, se encantava, amava e fazia versos. Mas precisava do dinheiro. A vida tem cada dia me custado mais caro e mesmo as necessidades básicas do hoje foram emendadas em pequenos luxos, para dar uma certa graça em viver. Por alguns poucos tostões furados, deixei na loja, coração por muito inutilizado e cansado de dor.
Quando os problemas financeiros ficaram de lado, resolvi passar na loja para retomar o que me era de direito, pois como se sabe, coração só se tem um e se ganha apenas quando se nasce. Para minha surpresa, o lojista me aparece com uma cara de indiferença e diz: "seu coração foi vendido, senhor. uma menina passou por aqui e o comprou, nem fez questão de saber quem era o dono". Senti angústia, mas não chorei porque levava o peito vazio. Começou então uma caçada pessoal e inesgostável pelas ruas da cidade por uma menina que comprou meu coração (tão barato). A ela, peço que me devolva, por favor. Pago em dinheiro.
Quando os problemas financeiros ficaram de lado, resolvi passar na loja para retomar o que me era de direito, pois como se sabe, coração só se tem um e se ganha apenas quando se nasce. Para minha surpresa, o lojista me aparece com uma cara de indiferença e diz: "seu coração foi vendido, senhor. uma menina passou por aqui e o comprou, nem fez questão de saber quem era o dono". Senti angústia, mas não chorei porque levava o peito vazio. Começou então uma caçada pessoal e inesgostável pelas ruas da cidade por uma menina que comprou meu coração (tão barato). A ela, peço que me devolva, por favor. Pago em dinheiro.
25 de outubro de 2007
Simples
Uma grande amiga minha certa vez me ensinou que as pessoas são com estações: algumas passamos sem perceber, ficamos muito pouco tempo a observar outras, temos um contato intenso mas pouco duradouro com outras pessoas, e algumas delas vivem para sempre em nós, como uma constante em nossas vidas.
Acredito que tudo em nossas vidas tem uma relação análoga com as pessoas com quem nos relacionamos. Tudo dura seu tempo e tem seu grau de importância. Foi assim que aprendi a perceber que às vezes a poesia da vida se apresenta sobretudo na forma das coisas simples, casuais. O extraorinário que encontramos nos cotidiano é exatamente essa capacidade de interpretar tudo como um romance de páginas marcadas e diálogos previsíveis.
Foi aprendendo a apreciar as coisas simples da vida que tomei gosto pelas pessoas simples e sem ambiguidades de coração. E de maneira análoga, passei a desenvolver uma simplicidade na maneira como exponho meus fatos sobre a vida. Por muito tempo tive medo de me pronunciar; hoje vivo o medo de morrer calado.
Acredito que tudo em nossas vidas tem uma relação análoga com as pessoas com quem nos relacionamos. Tudo dura seu tempo e tem seu grau de importância. Foi assim que aprendi a perceber que às vezes a poesia da vida se apresenta sobretudo na forma das coisas simples, casuais. O extraorinário que encontramos nos cotidiano é exatamente essa capacidade de interpretar tudo como um romance de páginas marcadas e diálogos previsíveis.
Foi aprendendo a apreciar as coisas simples da vida que tomei gosto pelas pessoas simples e sem ambiguidades de coração. E de maneira análoga, passei a desenvolver uma simplicidade na maneira como exponho meus fatos sobre a vida. Por muito tempo tive medo de me pronunciar; hoje vivo o medo de morrer calado.
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